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Uma Verdadeira Tripla Ameaça: Distúrbios Alimentares, Saúde Reprodutiva, e Treinamento Excessivo no CrossFit

September 27, 2020 by
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Editor’s Note: This story was translated to Portuguese by Axel Gouveia from the original English version, which you can read here.

De acordo com a adolescente de 18 anos, Tessa Marquette, as conversas após o treino no seu grupo de amigas fica bem intensa. Marquette, que já competiu no CrossFit Games na categoria teens duas vezes, passou uma semana treinando com outros atletas do Comptrain no Tennessee, quando um dia o assunto da conversa virou maternidade no futuro.

Não era segredo para Marquette e suas amigas que mulheres que participam de esportes de elite constantemente perdem seu ciclo menstrual e passam por desequilíbrios hormonais durante seus anos mais competitivos. Mas como a primeira geração de mulheres que cresceram fazendo CrossFit – Marquette pratica a modalidade desde que tem 12 anos – existem incertezas sobre os efeitos que o treino de CrossFit em alto nível pode ter no futuro dessas meninas.

Importante ressaltar: Para Marquette e suas parceiras de treino de alto nível, isso é muito preocupante e levanta vários questionamentos – esse problema é tão predominante no CrossFit como é no cross country ou na dança? Como as redes sociais impactam nisso? Como a comunidade pode encontrar uma solução antes que vire um problema maior? Outras meninas estão se fazendo a mesma pergunta?

  • “Todas nós sabemos que ser uma atleta de elite significa ter que fazer sacrifícios, mas ter uma família no futuro tem que ser um desses sacrifícios?” questionou Marquette.

A “Tríade das Atletas Femininas”

Apesar do CrossFit competitivo ainda não existir a tempo suficiente para produção de evidências que apoiem um lado ou outro, não há como negar a existência da “Tríade das Atletas Femininas” em outros esportes competitivos. De acordo com a Associação Nacional de Distúrbios Alimentares, a Tríade das Atletas Femininas se refere ao desenvolvimento de distúrbios alimentares, a diminuição dos hormônios que produzem o ciclo menstrual, conhecidos como amenorréia, e como resultado, também diminui o cálcio e a densidade óssea, o que pode levar a sérios problemas de saúde. Essa síndrome é especialmente comum em atletas de elite de esportes universitários, como ginástica e cross country.

A atleta de 17 anos, Emma Gardner, reconhece esses padrões na cultura do treino ao seu redor. Gardner era um pouco cética quanto ao CrossFit quando entrou na CrossFit New England, mas o seu amor pelo esporte cresceu rapidamente com o desenvolvimento da parceira de box, Katrin Davidsdottir. Para Gardner, por mais que as redes sociais tenham provido uma rede de suporte para ela e suas amigas do CrossFit, também trouxeram alguns problemas sombrios.

  • “Kristi Eramo postou um vídeo no YouTube fazendo uma avaliação para medir seu percentual de gordura, e ela tinha algo em torno de cinco por cento. Eu sinto que sou esperta o suficiente para saber que o corpo dela é diferente do meu, mas com certeza outras garotas que vêem isso, pensam que elas precisam emagrecer e comer menos para performar melhor,” Gardner explicou.

Embora não tenhamos pesquisas sérias sobre CrossFitters e percentuais de gordura, é amplamente aceito que, para as mulheres, um mínimo de 10-13% de gordura corporal é essencial para uma boa saúde hormonal.

Gardner mencionou o recente movimento das atletas dos Games na direção de uma imagem corporal mais positiva, como Amanda Barnhart.

  • Gardner: “Eu queria ter tido essas mensagens quando estava começando no CrossFit, e eu sei que tem um monte de meninas mais novas que podem usar esse conselho.”

Saúde Hormonal

Embora ela se considere sortuda de nunca ter tido nenhum distúrbio alimentar, ela não ficou imune a outros sintomas preocupantes. Ela não menstruou por um ano depois de começar o CrossFit, uma experiência que ela compartilha com muitas adolescentes que conheceu pelas redes sociais, em competições, e na academia. O seu ciclo menstrual não voltou até ela começar a trabalhar com o Mike Molloy da M2 Performance Nutrition, que Gardner considera vital para sua saúde como atleta.

  • “Para o Mike, saúde hormonal é definitivamente uma prioridade”, admitiu Gardner. “Até quando nós estamos trocando mensagens de rotina, eu conto todas essas coisas pra ele e se eu mencionar algo sobre minha menstruação, ele deixa tudo de lado e foca só no meu ciclo, o que é reconfortante.”

Embora Gardner tenha uma fonte para responder suas perguntas, e quaisquer outros estigmas, ela acha que muitas outras meninas estão caindo em armadilhas perigosas. 

  • “Tem tantas meninas que eu conheço que fazem a sua própria programação ou seguem uma programação que tem um volume enorme de condicionamento metabólico, para ficarem mais secas e assim mais parecidas com as atletas de destaque”, disse Gardner.

O fato é que ter vergonha de falar sobre menstruação acontece muito ao redor do mundo, inclusive nos corredores do ensino médio. Atletas como Gardner se sentindo confortáveis de falar sobre seu ciclo é uma medalha de honra para M2 e Molloy. De acordo com Molloy, esse relacionamento é estabelecido já na pesquisa de admissão de atletas, que ele considera vital para manter eles saudáveis e motivados.

  • “Muitas pessoas assumem que adolescentes são apenas pequenos adultos, eles não poderiam estar mais enganados,” Molloy explicou.

O fundador da M2 disse que por causa dos músculos aparentes e abdômen de tanquinho que ganham mais atenção nas redes sociais, uma grande parte dos clientes chegam para ele em um déficit calórico, buscando aquele tipo corporal. “Nós precisamos ensinar aos adolescentes e a todo mundo que ter dias de descanso, comer o suficiente e escutar o seu corpo não te tornam uma pessoa fraca, na verdade te tornam uma pessoa mais forte.”

Jornada da Alexis “Mathlete” Johnson

A atleta do Games de 2019 do Time Don’t Stop, Alexis Johnson vê através da cultura mística de contagem de macros e alimentação excessiva na elite do CrossFit. Depois de se recuperar de um distúrbio alimentar intenso durante a universidade, na qual ela chegou a pesar 88 lbs (40 kg) e perdeu o ciclo menstrual, Johnson descobriu o CrossFit, que ela admitiu frequentemente ser a sua única motivação para comer.

  • “Eu comia meia banana antes da minha aula de CrossFit, e apesar de ser bem mais do que eu estava acostumada a comer, não era o suficiente,” disse Johnson. Depois de se apaixonar pelo CrossFit, mas não conseguir continuar pelo seu distúrbio alimentar, Johnson foi estudar na Hungria, onde ela recorda ter se sentido “absolutamente miserável” devido à sua falta de controle sobre a alimentação e as constantes experiências que perdeu por causa disso.
  • “Quando eu voltei para os EUA, eu me lembro de pensar, ‘você quer ser normal? Se comprometa e seja.’ Eu entrei em uma nova academia de CrossFit, e o meu objetivo era só fazer com que eles pensassem que eu era normal,” disse ela.

Demorou um ano fazendo aulas de CrossFit para que ela parasse de pensar constantemente em restringir a quantidade de comida. Mas uma vez que ela focou em ficar mais forte e se tornar uma atleta melhor, se viu melhorando rapidamente e se classificou para a South Central Regional em 2014.

Johnson continuou a lutar com suas dificuldades em relação ao transtorno alimentar, mas se classificou para os Games na categoria individual em 2016 e 2017, onde ficou em 31° e 33° lugar, respectivamente. Depois de não conseguir se classificar em 2018, ela voltou para Madison em 2019 no time de estrelas, Don’t Stop, com Jen Smith, Travis Williams e Roy Gamboa.

Ela certamente se solidificou como uma competidora formidável, mas suas táticas, regime de treino e ecossistema são, em comparação com as suas concorrentes, não convencionais. Uma professora de matemática na Universidade de Minnesota, Johnson gasta a maior parte do seu dia ensinando e trabalhando, fazendo seu trabalho de programação na MisFit Athletics entre as aulas. No entanto, a maior diferença entre ela e suas colegas atletas do Games é a sua atitude ao monitoramento de macronutrientes e à sua própria dieta.

  • “Outros atletas já me disseram milhares de vezes que (contar macros) melhorou suas performances, seus níveis de energia aumentaram, melhorou como eles se sentem e se recuperam, e é tão tentador, mas eu sei como minha mente trabalha, e se eu contasse macros cairia em uma espiral e isso tomaria conta da minha vida,” admitiu Johnson.

Johnson consegue se recordar claramente quando em sua primeira Regional, mesmo um ano ou mais depois de seu pior transtorno alimentar, os mesmos sentimentos vieram correndo. Entre os eventos, Johnson sentiu dificuldade de comer metade de um sanduíche do Subway, não querendo “estragar” a sua performance ou seu físico. Agora, olhando para trás através de suas próprias lentes, Johnson admitiu que é difícil não notar os sinais alarmantes e os hábitos que ela mesma experimentou quando estava ao redor de suas concorrentes.

  • “Eu vejo (comportamentos de transtorno alimentar) em atletas a todo tempo,” disse Johnson. “Eu não posso julgar se é ou não devido a razões obsessivas, eles podem ter um mindset completamente saudável quanto a isso, mas eu te garanto, muitos dos atletas de elite que contam macros tem suas vidas controladas por isso.”

Agora, com 29 anos, ela consegue olhar para as adolescentes competindo nos Games e se sentir apreensiva por elas. Ecoando o que a Gardner disse, Johnson sabe que como a primeira geração a crescer no esporte, o território desconhecido de competir, lutar com problemas de imagem corporal, mídia social e manter uma dieta saudável será uma batalha difícil. Em um mundo ideal, Johnson disse que uma rede de confiança conectando meninas adolescentes a atletas adultas poderia fornecer o apoio necessário.

  • “Todas as coisas que mencionamos quando conversamos sobre transtornos alimentares, como imagem corporal e pressão das redes sociais, eu acho que essas adolescentes sentem em uma magnitude maior do que nós,” disse Johnson. “Eu diria (CrossFitters adolescentes) para escutarem seus corpos. Como CrossFitters, nós estamos mais em sintonia com nossos corpos do que a população geral, e nós podemos aprender com eles, quando e o que queremos comer.” 

A “Aparência dos Atletas do CrossFit Games”

Carleen Mathews, quatro vezes atleta dos Games, vem de um passado similar que inclui um distúrbio alimentar. A medalha de bronze do CrossFit Games de 2019 na categoria 35-39, lutou contra anorexia, bulimia, e depois contra o alcoolismo durante o início da sua vida adulta, mas encontrou o CrossFit em sua recuperação, onde ela então se classificou para sete Regionais consecutivas.

Mathews admitiu que desde 2015, quando ela entrou pela primeira vez na arena dos Games, ela não menstruava. Mas depois de uma estreia triunfante na categoria Master em 2019, Mathews deu boas-vindas a sua primeira filha, Charlotte, em Setembro. De acordo com ela, a transição não foi fácil.

  • “Problemas com imagem corporal e meus pensamentos do transtorno alimentar voltaram quando eu decidi engravidar,” disse Mathews. “O que eu lutei para fazer durante minha vida toda, agora eu estava fazendo o oposto. Foi muito difícil.”

Para Mathews, entretanto, a contagem de macros tem sido um consolo confiável, especialmente durante a gravidez. Mathews é dona da CrossFit St. Helens em St. Helens, Oregon, e nem o terceiro trimestre da gravidez a tirou de seu tempo na academia. Consequentemente, ela teve que garantir que estava comendo o suficiente, mesmo quando não era fácil. Para Mathews, contar os macros era a maneira mais fácil de se manter nos trilhos.

Enquanto Mathews está em paz com a sua alimentação, ela reconhece as dificuldades que mulheres no CrossFit, e em esportes de elite em geral, enfrentam quando se trata de comida.

  • “Muitas (de suas competidoras) estão buscando a aparência da “Atleta do CrossFit Games”. E para ter essa aparência, precisam estar em um déficit” disse Mathews. “Existe um pensamento de que se você aparenta ser fit, você é fit.”

Essa mensagem de precisar “parecer com uma atleta do Games” a ser legitimada no CrossFit pode ser confirmada por praticamente todas as atletas adolescentes participando no Open. Em uma entrevista com o Morning Chalk Up, Gardner se referiu a Katrin Davidsdottir, Brooke Wells e Amanda Barnhart pelo nome.

Não há dúvidas que existe uma imagem clara de uma mulher CrossFitter que vem à mente dessas meninas, possivelmente contribuindo para a mentalidade de “comer menos, treinar mais” que parece ser bem comum. Gardner, no entanto, aceitou não parecer com essas atletas do CrossFit Games, citando a idade e o crescimento como suas prioridades.

  • “Talvez seja só como nossos corpos são como adolescentes, não devemos ter essa aparência agora,” Gardner explicou. “Quando você está crescendo, eu não acho que ganhar músculo seja tão importante para o corpo. Eu não acho que os músculos que você está ganhando agora se tornem visíveis até mais pra frente.”

Graças a Molloy e outros coaches, Gardner parece ter sua cabeça no lugar quando se trata de imagem corporal, hábitos alimentares e seu relacionamento com a comida. Embora não haja nada que a CrossFit e a comunidade possam fazer para salvar a nova geração de atletas dos danos de imagem que causados pelas redes sociais, há algo a ser aprendido sobre a perspectiva da Gardner.

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